Livro das histórias dos Percursos

Com alegria anuncio o livro com os textos dos Percursos Afetivos pela Kotter Editorial. Nesta publicação, de minha autoria, estão as histórias da Maria Poeta, Ludmila, Gerusa, Lúcio, Sebastião, além das paisagens do Boqueirão, Terminal Guadalupe, Centro, Bacacheri, e outros lugares que compõem as muitas curitibas dentro da Curitiba. Quem tiver interesse pelo livro, tenho alguns pontos de venda:

Livraria Vertov em Curitiba + 55 41 99561 3967 (https://estantevirtual.com.br/livrariavertov

projeto Livros Nômades (Curitiba) + 55 47 99607 5810

Glauter Picolé (Rio de Janeiro) + 55 24 98823-9262

Livraria da Casa Tombada (São Paulo) : +55 11 96362 7762
e-mail: contato@acasatombada.com

Aqui publico o texto do posfácio que conta um pouco sobre o processo de criação do texto e a orelha do livro que foi lindamente escrita pelo Lucas Buchile.

“Uma praça que cabe no bolso; Borboletas que brotam no peito dos que dançam; Uma boca maldita; Penumbra de um cinema em volúpia; Uma saia amarela Oxúm: são algumas das imagens capturadas numa cidade (extra)ordinária, flagradas no percurso de um sujeito atento às sutilezas do espaço urbano. Através de uma narrativa urgente, Cadu Cinelli nos coloca na garupa de uma bicicleta. Convida-nos a percorrer uma cartografia habitada por personagens oprimidos pela especulação imobiliária, pelo machismo, pela LGBTQIA+fobia, pelo moralismo, pela eugenia, pelo capital e que encontram seus sentidos nas fendas imprevisíveis de uma urbanidade presumida.

Os limites comumente usados para distinguir corpos de territórios são borrados. Relevos, edifícios, becos e vielas passam a ser lidos através da corporeidade dos que se arriscam pela urbe, dos que “lavam seus medos” na fonte de uma praça pública, cotidianamente.

“O pior perigo de gente humana é o esquecimento” – diz o gato Antônio. Cadu, portanto, nos convida a piscar os olhos diante dos lugares que abrigam nossas lembranças mais intensas, na tentativa de apreender as paisagens que compõem o imaginário urbano. Desse modo, os leitores passam a colecionar instantes, como num álbum fotográfico. Rememorando os desejos de Marcopolo em “As cidades invisíveis”, o livro constrói trajetos narrativos para que possamos nos sentir habitantes de uma cidade afetiva, libidinosa, híbrida e expropriada. Trata-se de uma leitura errante, marcada por discursos indispensáveis ao debate político contemporâneo.

“Percursos Afetivos: uma cartografia de histórias”, é um livro que abriga espaços, temporalidades, memórias e impressões sobre uma Curitiba que, de tão corriqueira, torna-se extraordinariamente familiar, como parece ser tudo aquilo que nos torna realmente pertencentes a algum lugar.”

(Lucas Buchile, promotor de leitura, ator e produtor cultural)

Os contos aqui organizados foram escritos ao longo dos últimos anos, mais precisamente entre agosto de 2017 e novembro de 2020. Foram escritos por mim, inicialmente, como esboços para os textos que seriam performados e narrados durante as apresentações do projeto PERCURSOS AFETIVOS. Este projeto ocorreu com apresentações, realizadas por mim entre agosto de 2017 e novembro de 2019, e consistia em pedalar com o público enquanto eu contava as histórias.

Para cada “percurso” algumas narrativas eram pensadas e cuidadosamente criadas para compor com a paisagem. A minha investigação por vezes se misturava com a história do lugar, com a minha observação sobre suas particularidades, ou porque algum detalhe, ali presente, me chamava a atenção – incorporando-o à narrativa da apresentação.  Desta forma fui colecionando trajetos e histórias que cartografam, sob uma perspectiva bastante particular e imaginativa, a cidade de Curitiba. Aliás, cabe aqui esclarecer que os textos escolhidos para essa coletânea, são os referentes às apresentações e percursos em Curitiba (2017-2019), porque o projeto foi ampliando e ganhando outras cartografias, de forma que o apresentei também em Ponta Grossa, Pinhais (ambas no Paraná) e Lima, capital do Peru.

Os contos estão escritos em sua maioria em prosa. Mas alguns deles flertam com a poesia gerando uma “prosa poética”. Num jogo, como se eu estivesse contando para alguém em voz alta, embebido das dinâmicas e ritmos que isso pode trazer para a palavra escrita. A palavra contada foi, e ainda é guia para minhas escritas. São liberdades expressivas e criativas que me autorizei experimentar aqui na minha estreia como autor.

A ordenação da coletânea segue a cronologia de criação, por isso a cada conjunto há um algarismo indicando que os contos ali presentes são referentes a um grupo de histórias de um “percurso afetivo”. Quis deixar assim, também como forma de registrar o processo de como as histórias foram ampliando, transbordando, expandindo e ganhando espaços no meu processo criativo. Chamo a atenção para algumas das personagens que foram ganhando protagonismos para além dos seus primeiros “percursos”.  É o caso da Ludmila, que está presente em pelo menos três percursos, assim como o caso de Sebastião, ou mesmo de Guadalupe que tem sua história expandida no percurso afetivo que foi realizado no Peru.

O projeto PERCURSOS AFETIVOS tem sido um divisor de águas para mim. Ele surge como uma urgência de questionamentos que venho tendo ao longo desses anos sobre o meu trabalho artístico da narração de histórias. Sou contador de histórias, ator, diretor de teatro, e artista educador e têxtil. E como contador de histórias venho trabalhando desde 1998, principalmente com o meu grupo “Os Tapetes Contadores de Histórias”. O trabalho do grupo sempre esteve atrelado ao fato de contar histórias de outros autores ou com o reconto de histórias da tradição oral de alguma cultura. Ao fazer o reconto, sempre trabalhamos com o processo de recriação do texto a partir da experiência e prática de contar oralmente, o que desta forma possibilita um texto que vai “cabendo mais na boca”. E de tanto contar, acaba que a gente vai fixando e memoriza, e tornando-se aquilo, que é apenas uma questão de lembrar de uma história que está bem próxima da experiência de ter vivido ela. Essa prática vem sendo experienciada como processo artístico e criativo ao longo do tempo com meu grupo.

No entanto, eu vinha me perguntando desde 2013 sobre quais outras histórias as nossas realidades, enquanto cidades complexas que vivemos, podem ser urgentes de serem contadas, ou que narrativas precisam ser contadas neste presente que vivemos? Claro que essas minhas indagações não desmerecem e nem diminuem a imensa importância que os contos de tradição oral têm. De forma alguma! Por isso, ao me fazer essas perguntas, me dei conta de um outro questionamento: quais as histórias eu gostaria de criar para poder contar? Foi nesse sentido, que ao idealizar o projeto PERCURSOS AFETIVOS, vi a oportunidade de trazer essas criações autorais, em conjunto com uma prática da narração de histórias, a partir de uma perspectiva em que tanto a cidade e as pessoas que a fazem, se tornam protagonistas, coadjuvantes e pano de fundo.

Conforme fui me apresentando com o projeto, compreendi que essas histórias precisavam ganhar outras materialidades que não fossem só a do momento da apresentação. Por isso, no último ano, vim resgatando os esboços, os registros, manuscritos para trabalhar sobre as histórias de cada percurso afetivo.  Esse trabalho me trouxe a saborosa lembrança de como cada história me convidou a adentrar em todos os processos que me levaram ao projeto. Também ressalto aqui que publicar as histórias é uma maneira de cartografar em palavras escritas, os meus percursos afetivos por essa cidade, que vem me abrigando desde final de 2017. Mais para frente pretendo outros “percursos” que possam ir mais ao sul e oeste da cidade, regiões que também apresentam outras “Curitibas”, para além dos cartões postais centralizados e turísticos. Acredito ser fundamental entender as complexidades das cidades, principalmente as nossas metrópoles latino-americanas, e Curitiba está inserida nisso – por razões políticas, essas complexidades são escondidas ou negligenciadas em favorecimento de um discurso hegemônico que privilegia o espaço urbano como lugar de produção econômica de manutenção das classes dominantes e de seus territórios, que se tornam espaços lucrativos com a especulação imobiliária. Há o esquecimento do caráter de morada que uma cidade pode ter, no seu sentido mais complexo, humanitário e ontológico. Em pleno início de século XXI, seria no mínimo ingênuo acharmos que uma cidade latino-americana possa ser uma cidade de padrão de qualidade de vida para todos os seus cidadãos. É uma falácia, uma ilusão, um slogan de politicagem. Essa tal qualidade de vida está direcionada a alguns pouquíssimos cidadãos.

Compartilho aqui que o projeto PERCURSOS AFETIVOS vem me proporcionando outros desdobramentos, para além da apresentação e da escrita dos textos desta coletânea. Me levou para um doutoramento em Geografia na UFPR, para discutir sobre experiências espaciais com a narração de histórias com ciclo-entregadores da cidade de Curitiba e região metropolitana; um podcast como novos contos, crônicas e poemas que estão sendo publicados nas plataformas na internet; um site para o projeto em si; e discutir também sobre a criação de cartografias bordadas dos trajetos percorridos de cada percurso afetivo, para uma futura exposição. Esses são alguns dos desdobramentos em curso.

Gostaria de deixar registrado meus amorosos e carinhosos agradecimentos: para meu marido amado, que sempre acolhe, incentiva e inspira, Douglas Bach de Andrade (Dag); ao meu gato companheiro de quase 18 anos Antônio Cícero; aos meus companheiros de Tapetes Contadores de Histórias (Andrea Pinheiro, Edison Mego, Helena Contente, Ilana Pogrebinschi, Rosanna Reátegui e Warley Goulart) com quem aprendi e aprendo sobre o nosso ofício de contar histórias; às mestras e mestres da arte de contar histórias de todos os tempos; à minha comadre Ana Paula Gurski e meu compadre Diego Marinho, pelo apoio e amizade de sempre; aos grandes amigos Patrícia Valverde e Fernando Rosenbaum da Bicicletaria Cultural, que me abriram os olhos para a cultura da bicicleta e abraçaram a ideia do projeto desde o início; ao Doug Oliveira, que incansavelmente tirou muitas fotos em nossas apresentações; para meu orientador no doutorado, professor Marcos Alberto Torres, que expande em parceria generosa para tantas geografias imaginárias, afetivas e sensíveis; a todos os companheiros do LATECRE UFPR tão inspiradores; para grande Glória Kirinus que escreve o honroso prefácio e nos faz lembrar como Curitiba é lindamente latino-americana; ao querido Lucas Buchile pela orelha escrita aqui que abre o livro de forma tão linda; à Mana Lucena pelo incansável e meticuloso trabalho de revisão; à escritora portuguesa Marta Duque Vaz, para quem mostrei os primeiros esboços e me incentivou a seguir escrevendo; à minha mãe Liane Cinelli e ao meu pai João Campos, por terem me criado com amor e dedicação; às minhas irmãs Cristiane e Viviane Cinelli e aos meus sobrinhos João Pedro e Maria Luíza, por serem o que são em alegria e fraternidade; às minhas avós (in memoriam) Gilda, Carmen e Maria, por terem sido grandes avós; aos meus tios Umberto, Evelyn (in memoriam), José Claudio e Maria Luiza por terem oportunizado uma abertura de visão de mundo; e finalmente à cidade de Curitiba e suas pessoas que me inspiram a fazer esse projeto.

Cadu Cinelli

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