japry – caminho de algo ou de alguém

“Japry: caminho de algo ou de alguém” é um projeto artístico de criação e apresentação de performances narrativas itinerantes com bicicletas para contar histórias com temas ligados às paisagens e patrimônios culturais. O projeto proposto pela Bilboquê Criações Artísticas e Culturais, tem coordenação geral de Cadu Cinelli, compreende na formação de artistas educadores, para criação de performances narrativas itinerantes na cidade de Curitiba e as fronteiras com sua região metropolitana.  A comunidade é convidada para realizar um processo que envolve arte, participação, cidadania e patrimônio histórico e cultural, que consiste em: formação de artista educadores, apresentações para contar as histórias, publicação de encartes das cartografias dos processos criativos e um site para acesso a todos os dados e documentos gerados pelo projeto. Japry é um projeto de prática artística comunitária que reconhece este dispositivo como uma potência para as dinâmicas socioculturais, numa convocação da população à participação cidadã. Em sua proposta o projeto pretende trazer à tona as histórias dos lugares, as relações das pessoas com eles e as implicações desses jogos nas transformações do tecido social de cada localidade.

Contar essas histórias com a paisagem e patrimônios culturais traz à luz a uma parte do processo de urbanização ocorrido nas cidades paranaenses, emergindo a complexidade que o desenvolvimento e o progresso implicam nas dinâmicas sociais (COSGROVE, 2004). Contar essas histórias é uma forma de cartografar afetivamente (CAMPOS & TORRES, 2020) esses territórios e paisagens, reconhecendo as pessoas em suas geografias cotidianas como participantes, e por que não, protagonistas do processo histórico (CERTEAU, 2011).

Contar essas histórias é uma forma de valorizar e reconhecer a importância que o patrimônio cultural têm na constituição das paisagens culturais do Paraná, e o projeto pode contribuir para esta valorização com o levantamento de dados importantes para além da própria realização das ações do projeto para manutenção e elaboração de políticas públicas que auxiliem sua preservação.

JAPRY nasce do interesse em fazer uma expansão e desdobramento do projeto Percursos Afetivos idealizado por Cadu Cinelli, que tem como proposta contar histórias com bicicletas em itinerância pelas cidades. O “Percursos” tem como foco a criação desses trajetos e histórias semi ficcionais sobre as paisagens, pessoas, monumentos e construções de cada localidade. Para tanto, Cinelli vem ao longo do tempo criando essas narrativas para cada percurso que realiza (CAMPOS, 2019). Japry é uma ramificação dos “Percursos Afetivos”, um desdobramento com recortes específicos: o de trabalhar sobre outros aspectos da cidade, que se tornam pontos de partida, que no caso desta proposta são as casas de madeira paranaenses; o fomento à participação de outros artistas (profissionais e/ou n/ao profissionais) que possam ser criadores e atuantes nas performances, para gerar envolvimento e participação em cada lugar que o projeto for implementado; e o recorte, que é transversal a todo ideal, tanto dos “Percursos” quanto de “JAPRY”, é a transversalidade do uso da bicicleta enquanto dispositivo mediador de processos criativos, artísticos e socioculturais (NAKAMORI, 2016).

JAPRY é uma palavra da língua Kaigang, um dos povos originários presentes no estado do Paraná, assim como os Guaranis e os Kretás. Japry significa “caminho de algo ou de alguém” (WIESEMANN, 2002, p28). Contar sobre as histórias das pessoas e outros seres vivos nas relações com suas paisagens e territórios, torna-se um convite para contar sobre os percursos, os caminhos de algo ou alguém em suas geografias, para revelar essa relação, no sentido ontológico com o lugar, com a terra, com essas geograficidades (DARDEL, 2015). Japry traz o reconhecimento das origens das primeiras populações que aqui sempre estiveram, antes mesmo da invasão europeia depois de 1500. Falar sobre esses caminhos como Japry é reconhecer que o território paranaense, nesse Paraná, que também é palavra guarani, como o mar, é território, sobretudo, indígena. Reconhecer que parcela majoritária da tecnologia empregada na construção de algumas dessas casas, foi de sabedoria desenvolvida pelas populações indígenas aqui presentes e que tinham pelo conhecimento do manejo e uso da madeira das araucárias, árvore símbolo no bioma “Mata Araucária” que constitui boa parte das terras e águas do Paraná. Trazer esse reconhecimento na atualidade traz a possibilidade de estar em consonância com o debate sobre o complexo processo histórico de desenvolvimento urbano sofrido nas cidades em terras latino-americanas e o quanto isso ainda provoca o silenciamento e apagamento das existências dos povos originários, tradicionais e populações marginalizadas devido às suas condições sócio econômicas (população moradora de favelas, periferias, pessoas em situação de rua, etc.),  que não estão em conformidade com projetos eugenistas e higienistas ocorridos ao longo do século XX e que ainda influencia ideais urbanistas no início deste século. 

O Instituto Democracia Popular – IDP e o LATECRE – UFPR (Laboratório Território Cultura e Representação) vinculado ao Programa de Pós Graduação em Geografia da UFPR apoiam institucionalmente este projeto que tem a gestão da Bilboquê Criações Artísticas e Culturais.